Bordando para mim

Acho engraçado quem fala que não borda para si. Quem não reserva um tempo para fazer algo diferente, algo mais livre dentro daquilo que ama fazer. Eu amo bordar e sempre falo isso. É meu meditar, me sinto completamente presente, quase não penso. Como uma meditação mesmo, foco no movimento da agulha, no cuidado com a linha para não enrolar ou dar nó sozinha, no próximo ponto, na próxima cor.

Quando bordo para criar um novo produto, uma nova peça que deve ir para a casa de outra pessoa, existe uma exigência, um olhar mais minucioso, um cuidado com o tecido, com o ponto do melhor jeito, o tempo que está me tomando. Então mesmo que eu ame fazer aquilo, estou focada no resultado, na qualidade, na precisão.

E o oposto acontece quando decido criar algo para mim. Escolho outros materiais, testo pontos diferentes que encontrei em algum lugar ou vi em um livro. Testo novas paletas de cores. E fico livre no avesso, economizo linha, dou nós retorcidos, cruzo a linha pelo avesso para o próximo ponto, não me importo quando não percebi que a linha enrolou e ficou um bolo de fio sobrando. É claro que conscientemente sei que pode me levar a um resultado que poderei usar na minha marca, mas naquele momento não é o que busco.

Só esse ano finalizei dois grandes projetos pessoais e que já estão decorando minha casa. O primeiro foi o famoso bordadão para quem me acompanha no stories. Separei ele para uma viagem que fiz no final de 2019, comecei durante essas férias, como era do tamanho de uma folha A2 eu sabia que não seria um bordado pra completar nas férias. Pegava para bordar nos finais de semana e feriados, deixava encostado quando estava fazendo outras coisas nas horas vagas. O bordadão andou comigo pela casa, fazia aqui sentada na minha mesa do escritório enquanto esperava secar o acabamento de uma nova peça ou quando tinha terminado minha atividades mais cedo. Ia para o sofá e muitas vezes ficava lá no braço do sofá por dias sem ser tocado. E então quando ele finalmente entrou na reta final eu fiquei ansiosa para terminar e levar para colocar uma moldura linda.



O outro bordado que já está em uma moldura, foi do risco de março da assinatura do clube do bordado que eu me apaixonei e senti uma grande necessidade de fazer e fazer ele grande. Fiz algumas alterações, deixei maior que o risco original (a louca dos bordadões desafiadores) e logo comecei a bordar. Fui mais rápida, tive que refazer algumas partes e usei muito em momentos de bloqueio criativo ou quando achava que tudo que estava produzindo era lixo. Não com o intuito de fazer qualquer coisa, mas era algo que já estava ali, riscado, as cores definidas. Quase mecânico. E em tempos tão esquisitos, cheios de altos e baixos, mais baixos que altos, foi um ótimo exercício. E foi um ótimo escape, mas me mantendo aqui.

Já bordei presentes para meu marido, já bordei presente para outras pessoas, já bordei roupa. E para ser sincera, estou tendo umas ideias meio grandiosas de um projeto ainda maior. Coisas para a casa mesmo.

Bordar é meu trabalho, mas também é meu hobbie. E talvez o meu segredo seja limitar meu tempo de trabalho. Eu fico exausta e irritada de ver tanta gente massa que não separa tempo para lazer. Não tem tempo a noite e muitas vezes posta com orgulho apagando a luz do escritório ou atelier de madrugada. Depois mostra a pilha de projetos inacabados, de rabiscos de ideias, de tecidos nunca usados, de linhas especiais guardadas para serem usadas um dia quem sabe. Acho inconcebível alguém chegar a um burnout trabalhando com algo tão incrível, não sei se por pegar mais projetos que 8 horas por dia, se pegar projetos para os 7 dias da semana, se falta de organização. Mas sem pensar em si, no lazer, no hobbie.

"Ah mas eu bordo tanto durante a semana que quero distância nos finais de semana e feriados" tá ótimo, então tenha outro hobbie. Eu as vezes passo meses sem ter um projeto pessoal. Você irá me ver cuidando das plantas, da casa, montando quebra cabeça, fazendo um cachecol em tricô ou até tentando arranhar no crochê. E a meta agora é aprender a costurar. Mas o bordado para mim está sempre ali no fundo da minha cabeça. As vezes não quero nem tricotar, queria mesmo é ter um projeto pessoal novo.

Nesse momento ideias vão em vem, começam a se formar na minha cabeça, ficam mais borradas, as vezes mais claras, outras somem. Em algum momento eu sei que minha próxima ideia vai ficar nítida e eu vou preparar para logo começar. Por hora, tenho um cachecol em tricô que comecei e já deveria ter terminado porque o frio chegou de vez.

E se você veio até aqui ler, separe um tempo para seu hobbie. Seja com artes manuais, seja com música, com exercício. Separe um tempo para você sempre!