A solidão do trabalho manual

Eu amo a solidão, mesmo. Amo criar momentos só meu, da refeição com cuidado só minha, da pipoca com filminho, no café sozinha ou passeios pelas ruas. Acho delicioso poder saborear o silêncio, observar o mundo em volta, ver pessoas sem precisar interagir e encontrar assuntos em comum.

Mas trabalhar todos os dias sozinha, fazendo todas as tarefas tradicionais, mais as que me dão prazer sem uma parceria, uma companhia, é solitário e muitas vezes cansativo.

Faz falta coisas simples de um trabalho em escritório. A pausa para o café e o bate papo rápido. A saída para almoçar e conversar amenidades ou coisas mais sérias. O happy hour, eventos, reuniões. Eu que sempre fui brincalhona, faz falta fazer graça na mesa de um colega, escrever um bilhete para decorar a mesa, arrumar uma festinha de aniversário pra fazer o dia de alguém mais feliz. Bobeiras que não damos tanto valor enquanto elas acontecem sabe?



E aqui estou eu, todos os dias. Não tenho ninguém pra me cobrar, pra fazer rabiscar ideia juntos, pra dividir as tarefas legais e chatas. Saio da minha mesa, preparo meu almoço, sento sozinha, a não ser pela Zoey que fica me olhando comer. Então termino, lavo a louça e volto pra minha mesa. Tem dias que as pessoas chegam em casa e eu continuo trabalhando mais um pouco. Tem dias que encerro mais cedo e já sento no sofá pra relaxar.

As vezes a companhia é o Instagram e as poucas pessoas que topam conversar por lá. Mas na maioria das vezes é sobre falar sozinha.

É muito louco amar essa liberdade de trabalhar muito em dias que estou rendendo e me dar um tempo quando não estou bem e sei que não vou produzir. Amar não encarar trânsito, ônibus lotado, mas também não ver ninguém o dia todo. Amar não ter mais tarefas que odeio e poucas que realmente gosto de fazer e ter que fazer porque tem alguém em cima olhando e cobrando. Mas também odiar fazer algumas coisas e se não fizer, elas não serão feitas por outra pessoa. Amar não ter que parar tudo para fazer várias reuniões inúteis, mas odiar não ter essas saídas para mudar o ar, o ambiente. Amar não ter fofocas de trabalho, intrigas, disputas, receber energias de gente desanimada que odeia o que faz e não faz nada. Mas odiar não ter relações humanas diretas, contato, afeto.

Pra mim, ainda tem mais pontos positivos que negativos. O que me leva a pensar em happy hour kraft, festa de fim de ano de várias firmas de uma pessoa só, almoço rápido com quem precisa sair pra comprar material e pode fazer essa pausa, café com trabalho, compartilhamento de escritórios e ateliê. Muito bobo? Alguém topa?